DEAR WHITE PEOPLE E PORQUÊ NÃO EXISTE RACISMO REVERSO

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Vocês já devem ter observado o rebuliço (lembrei da minha vozinha falando essa palavra kkk, me senti a velha) que a série Dear White People está causando. E com ela aparece o discurso de racismo reverso. Maaaas, antes de dar minha opinião sobre racismo reverso, vou falar rapidinho sobre a série e sem spoilers, claro.

Alunos negros de uma importante universidade enfrentam desrespeito na escola que está longe de ser pós-racial. Quando alunos brancos decidem fazer uma festa se "caracterizando" de negro (o famoso black face: pessoas brancas se pintando de preto para imitá-las de forma caricata), eles começam uma manifestação.

A atriz principal é a Sam. Samanta White, inclusive que MULHER MAIS LINDA. Ela carrega um enorme desejo de mudança na universidade. Ao meu ver, a série pegou bem leve em vários pontos. Eu esperava mais da série. Queria "brigas". Mas ela ficou muito presa a sexo, drogas, festas e reuniões na convenções dos negros. Algumas coisas que poderiam ter destaque foram tratadas de forma branda. Espero realmente que a série ganhe mais força numa nova temporada e que vocês assistam e tirem suas próprias conclusões.

"Mas, Talita, que porra é racismo reverso?"

Bom, na cabeça (?) de alguns, nós negros praticamos racismo com pessoas brancas. Quase sempre nas discussões sobre racismo, aparece um pra falar de racismo reverso. Meu caro, esse texto é pra você.


Pra chegarmos no racismo reverso, vamos começar falando dos barcos "branqueiros" que aqui chegavam. Eles foram transportados e chegaram em condições desumanas. Ao chegar, suas mulheres e filhas foram abusadas pelos negros que aqui moravam pra "procriar". Isso aconteceu? É OBVIO que não.

Se você já se incomodou por assistir uma cena de estupro de um "homem branco" numa negra numa dessas novelas de época, tem noção de como dói um milhão de vezes mais, na gente? Saber que a nossa miscigenação nasceu, em sua maioria, de estupros? É imensamente doloroso.

Como não bastasse isso e muitas outras coisas que eu não pretendo falar, tanto tempo se passou e nós ainda não somos reconhecidos como deveria. Nós ainda somos seguidos em lojas. A policia ainda mata muito mais negros que brancos (não que a polícia deva matar brancos ou negros, mas pesa quando os negros, por exemplo, são os únicos abordados e considerados "perigosos" se abordados junto de um grupo). Nós não temos o direito de usar o nosso cabelo natural sem ouvir que nosso cabelo é asqueroso, duro, nojento. Nós ainda somos humilhados em qualquer lugar por causa do nosso cabelo ou cor. 

Um exemplo simples disso sou eu: negra de pele clara, obviamente não sofro tanto quanto as manas de pele mais escura. Mas já fui humilhada diversas vezes por causa da minha cor e do meu cabelo. Lembro de quando criança ouvir "ela deveria ter a cor da prima (branca feito leite), seria tão linda". Você já namorou um cara negro que parentes preferiam que fosse uma negra no seu lugar? Eu já namorei um branco cujos pais preferiam que fosse uma branca no meu lugar (tem noção? E hoje eu só consigo pensar no sofrimento de quem é muito mais escura que eu...). A realidade é que a elite é majoritariamente branca, mas há lugares que os negros ganham mais espaço. Nos presídios, por exemplo. 77% dos mortos são negros.


Vocês provavelmente não saberiam lidar caso o que acontece com a gente todo dia, realmente acontecesse ao contrário (e os brancos sofressem "racismo"). Não estou dizendo que somos fortes, estou dizendo que temos que ser. Porque temos que lidar com isso e vocês, brancos, não. 

Não existe racismo de negro para branco. Se no conceito, racismo é um sistema de opressão e pra haver racismo tem que haver relações de poder, e negros não possuem poder institucional para serem racistas. Qual a cor da maioria dos atores da televisão? Dos diretores  das novelas? A cor da maioria dos universitários? Brancos são mortos por serem brancos?

Chamar alguém de branco azedo é bobo e feio, e em alguns casos pode até mesmo ser caracterizado como bullying (dependendo da intensidade da agressão e de como e com que frequência ela é feita), mas não é racismo. Você, que foi chamada(o) de branca(o) azeda, já perdeu oportunidades por causa disso? Agora ser xingado por ser negro limita nosso espaço e nossas escolhas. Limita, por exemplo, nossas chances de ser contratados para um emprego. Acreditem se quiser, mas negros com qualificações muito boas perdem espaço para brancos não tão qualificados simplesmente por serem... negros. Se um branco precisa se esforçar 100% para conseguir algo, os negros precisam se esforçar 200% para sequer serem notados. Acreditar que racismo reverso existe, é mascarar esse racismo perverso que vivemos.


  INFORMAÇÕES DA SÉRIE:

Nome da sérieCara gente branca 
Número da temporadas até o momento: 1
Diretor: Justin Simien
Elenco: Logan Browning, Brandon P. Bell, DeRon Horton, Antoinette Robertson, John Patrick                                  Amedori, Ashley Blaine Featherson, Marque Richardson, Giancarlos Esposito.
Onde posso assistir: https://www.netflix.com/title/80095698
Nota: 7,5 /10
                              
                           
Esqueci de me apresentar! Sou a Talita mas pode chamar de Tai ou Tali! Apaixonada por florzinhas, sou dona desse blog e canal que aborda cachos, crônicas sobre variados temas, colorismo, maquiagem para pele negra, resenhas e dicas de produtos baratinhos. Esse é o meu instagram. vem me acompanhar! Prometo que vai gostar do meu feed. 

Notas da Ana Lu: Eu convidei a Talita para vir falar sobre Dear White People por questões de vivência e local de fala. Eu considero o racismo dentro da sociedade uma temática importante e que deve ser debatida e definitivamente eu queria trazer isso pro Quero Mais Pizza, mas ao mesmo tempo eu não queria me colocar em uma posição de tirar o local de fala de alguém que vivencia exatamente o que a série mostra (ou seja, o racismo). Então eu decidi trazer a Talita que é uma amiga muito querida para que ela pudesse explicar pra vocês exatamente o que a série aborda e por que não existe racismo reverso. Espero que vocês tenham gostado do post, entendido essa questão e que visitem as redes sociais da Talita, pois ela é maravilhosa. Qualquer dúvida deixe aqui embaixo nos comentários, por favor, que ela vai responder todo mundo. E não se esqueça de compartilhar o post caso você tenha gostado, ou se identificado com as coisas que ela diz aqui. 

Comente com o Facebook!

Um comentário:

  1. "Cara gente branca" é um compilado de várias violências que vivemos diariamente ao longo dos anos. Eu assisti a série em um dia e confesso que estava muito empolgada. Acredito que a série deva ser vista mais de uma vez, pois há pequenos detalhes que de primeira passam despercebidos, mas vamos por partes.

    Existe todo um sistema onde o racismo foi perpetuado ao longo dos anos e por mais que hoje se ouça o discurso de "somos todos iguais", não há ainda uma reflexão profunda de pessoas não negras - e até de pessoas negras também - sobre o tema - mas é claro que isso também não é algo fácil de ser debatido. E a série vem para "escrachar" exatamente isso. A real é que o sistema é muito complexo, o racismo foi tão naturalizado que é "normal" você de ouvir de um negro que isso é bobagem, não existe, mas existem várias questões por trás.

    Eu gostei muito da série, achei que dá pra explorar várias questões envolvendo negritude a partir dos debates que ela abre e dos questionamentos que deixa no ar e também senti falta não de "briga", mas de algo mais visceral, mas como ainda é a primeira temporada e eles precisavam contextualizar, eu até entendo o porquê de terem "pegado leve". No entanto a série aborda muitos temas que teimamos em varrer pra debaixo do tapete.

    Como a solidão dos negros, a hiperssexualização, o auto-ódio, colorismo, são várias questões intimamente interligadas e que precisam de mais atenção e cuidado no debate.

    Eu acho que a série abordou muito bem alguns temas e você disse que eles focaram em "sexo, drogas e etc"... Mas, por exemplo, no episódio do namorado da Sam, quando ele "visualiza" as cenas da Sam com o Reggie, aquilo é exotificação pura. Por que os brancos acham que os negros são uma máquina de sexo e na real o que rolou entre a Sam e o Reggie foi além de sexo, então assim, acredito que alguns detalhes devam ser analisados com um pouco mais de atenção.

    Desculpe o textão, rs mas é que é muita coisa, caso queiram trocar mais ideias sobre a série só me chamar!

    Beijos
    Cami Santos

    ResponderExcluir

Quero + Pizza • Design e Desenvolvimento por Lariz Santana